sexta-feira, 8 de julho de 2011

A verdade poética de Catarina

Com o mundo aos olhos, Catarina andava,
andava e procurava sempre andar mais.
Catarina era a criança viva de passagem por parques, ruas e escolas.
Catarina tinha olhos de ver o mundo de criança.
Catarina vivia o que via, e sentia que vivia
Catarina aprendera a verdade poética
Catarina via o silêncio entre as palavras
Catarina sabia dos, olhos os olhos que viam Catarina 
Catarina conhecia a verdade poética
A verdade dos gestos tímidos a grandeza do olhar perdido
Catarina não sabia,
Mas via do mundo
mais que a estética que o mundo dá
Catarina não sabia da beleza das coisas
Catarina sabia da beleza, a destreza que se deve dar
Sabia que de tudo o que via, via mais
Catarina andava e andava
Andava entre as flores,
Mas ,das flores, nada queria
A verdade poética de Catarina
Era a mão que plantava
A vontade do olhar e o presente da amante
Catarina
andava por homens e carros
Na visão da menina, famílias, lutas e amores
Catarina
não tinha a cidade parada dos prédios
Catarina queria o suor do trabalho, o lar e as marcas
(Quando marcas, deixadas eram)
Do operário, as lutas das massas
O uniforme e a alegria da chegada em casa.
Catarina
não via homens nem mulheres,

Catarina
tinha nas costas o caminho
caminho de quem andava a ver
Catarina cresceu
Descobriu a palavra
A palavra poiese
A palavra, de sua verdade.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Concreto formal e vísceras

De parto a parto
Aparto
 Palavra
Palavra da ideia
Palavra palavra
Parto da palavra
Parto da palavra
Faço palavra
Palavra concreta
Dura
Dura palavra quebrada
Que dura
Dura o tempo do parto
Parto da palavra pesada
Parto para o mundo da palavra quebrada
Parto para a coisa da palavra coisa
A palavra é coisa
Parto
De palavra pesada
Que mexe
Palavra viva que é palavra
Concreta
formal
Vi a palavra pesada
Crescente
viva
Quebrada
Que
Vi rá
Vi
s ce rá
Vi ral
Visceral 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mudanças

Mudanças não são boas nem ruins, simplesmente, por que nada é bom ou ruim atoa.

Não esperem que uma mudança em sua vida seja benéfica por si mesma. Como se, por um passe de mágica, só o que precisamos é mudar para sermos felizes.

Mudanças são opções, escolhas e, sobretudo, caminhos. Mudar por si só, não muda nada. Não traz sorrisos, força, ou qualquer coisa que valha. Mudar só traz a mudança. Isso mesmo! Mudar significa não fazer mais as mesmas coisas, não ser a mesma coisa ou não estar no mesmo lugar.

Podemos mudar de amigos, mudar de casa, de família ou de emprego. Mas se a mudança não for um caminho a ser trilhado, não mudamos em nada. Não saímos do lugar e, pior, disfarçamos aquilo que tanto nos fez querer mudar.

Mudar exige mais que a vontade de deixar algo para trás. Exige a coragem de olhar para trás e encarar tudo outra vez. Exige reconhecer os erros e os acertos e, depois, mudar tudo o que pensamos sobre erros e acertos. Exige saber que erraremos tudo de novo e acertaremos tudo de novo. Mudar é olhar as pessoas de frente e saber o que elas significam, é se olhar pelos olhos das pessoas e saber o que você significa. Mudanças exigem a sabedoria de perceber o mundo a sua volta não pelos mesmos paradigmas, mas pondo novos olhares em tudo.
Para mudar de verdade, não devemos mudar as sombras e as feridas do que ficou para trás. Uma mudança não deve ser só um recomeço. A mudança exige respeito aos caminhos trilhados até então, pois se não, se tornam fugas vazias.
 O melhor da mudança é poder escolher o novo caminho baseado no velho. As vantagens de quem muda não são as mesmas de quem começa, pois quem muda traz consigo marcas de escolhas vividas. É como se pudéssemos navegar oceanos já tendo conhecido as estrelas que nos guiam.
 Para mudar, precisamos, acima de tudo, nos respeitar. Nos respeitar sem as certezas que tínhamos antes. Precisamos nos conhecer e saber que precisamos nos olhar de forma diferente. Mudar pode curar feridas, mas nunca deve apagar as cicatrizes.

Nossa memória é nosso mais valoroso bem. Pode não ser o mais confortável, nem o mais esplêndido; mas é o que temos de mais nosso. É o que somos.

Mudar não é ser outra pessoa. Não é deixar de ser o que somos. Mudar não é morrer! Nem tente! Não vamos renascer. E o melhor de tudo, é que ninguém precisa nascer de novo para ser feliz.

Mudar não é violento. Não requer radicalismos. Mudar é simples: é querer mais, querer diferente; é um "não querer mais" e um "não querer diferente".

Mudar é se por à prova. Provar para si que pode e quer viver mais e além. QUERER provar para si que se pode querer viver mais e além.

Mudar não é uma decisão de vida, pois em uma vida não existe uma decisão. Mudar é rever os caminhos. É pensar nos caminhos.

Acima de tudo, mudar não cura, não faz feliz, nem realiza sonhos. Quem faz isso é quem muda. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

ledo íntimo

Ledo íntimo

 Alegre em si e nada mais

Ledo engano

domingo, 12 de junho de 2011

As casas.

Os azulejos nas casas coloniais são como os poemas
A fria palavra talhada e ornada
Tal qual a palavra que não sabe a que nasce
Mas nasce e renasce na mão do poeta
Os azulejos das casas coloniais
Contam e emprenham de vida a vida que emolduram
Correm-se os olhos nas cores e nos desenhos
Nas janelas,
 as flores, as belas
As velhas a fofocar
 São temas da poesia
Que objetos se tornam
Ornadas pela pedra, pela tinta e pela mão do artista a revelá-las.



Afora isso, nenhuma imagem, depois, faz sentido

sábado, 11 de junho de 2011

O Sonho

Esta noite sonhei que era um cara que consertava coisas. Tinha um talento especial para consertar e refazer as imagens que coisas novas proporcionavam às pessoas.
Em meu sonho. Eu tinha que consertar uma pulseira que era muito importante para alguém.
A dona da pulseira me ligava a toda hora, querendo saber se eu já havia acabado o serviço.
Muito ocupado, eu não consegui acabar.
Acordei.
Tive uma sensação estranha ao acordar. Pensei naquilo que não terminei enquanto sonhava. Lembrei que usava roupas estranhas e falava em alegria. Lembrei que consertava coisas enquanto sonhava.
Enquanto a vida voltava ao normal, em tudo que eu tinha para fazer, pensei se existia um lugar para onde iam as coisas que eu tinha que fazer enquanto sonhava. Perguntei se existia alguém que ainda esperasse o que eu havia começado

domingo, 15 de maio de 2011

Quem tem medo dos humoristas?

 
A, não tão nova, onda de patrulha e discussão sobre o direito de os humoristas tratarem ou não de determinado assunto teve sua recente tensão aumentada pelo destaque dado à mídia ao deputado Bolsonaro, que em suas incursões midiáticas, nos proporciona sua  verborragia preconceituosa e nada espontânea (cabe aqui, uma pequena pausa para um minuto de reflexão acerva do caráter eleitoral de suas falas e a forma como trabalha o imaginário do povo conservador que o tem como representante).
Piadas sobre judeus, gays, ou quem quer que seja passam por uma censura moral mais difícil de combater do que qualquer DOI CODI físico que todo mundo pode saber  onde está (ao menos no sentido aqui exposto, esclareço para não pensarem que não sou sensível aos problemas, por este, causado). Esta censura, condena com ofensas pessoais (!?) e desmerecimento(!?) profissional qualquer tipo de manifestação que aborde os temas tabus em questão; como se fazer aquela piada sobre o veado que descia do ônibus e... Fosse o mesmo que tratar diferenciadamente dois jovens de orientações sexuais distintas em uma entrevista de emprego pelo seu trejeito, ou pela sua forma de falar (citar somente a opção seria rasteiro e pobre).
Sobre os judeus, o tema se torna mais complexo ainda. Não que uma forma de preconceito seja pior que a outra, mas o tabu em relação ao judeu é mais institucionalizado. Tocar em um aspecto referente ao estereotipo construído acaba sendo confundido com levantar a bandeira de uma política que se constitua, entre outras coisas, através do genocídio. A questão fica tão grave, que não se percebe o quanto é hipócrita esta defesa, pois vivemos e levantamos a bandeira de um sistema de VIDA, que sob o argumento de um discurso democrático faz guerras de caráter escuso, destrói a dignidade de povos usando representações desastrosas de suas culturas como meio de justificar a centena de bombas que receberão em suas cabeças.
Enquanto países excluídos do ciclo de “progresso” capitalista estão passando fome, um povo tem sua reputação vilipendiada e um país desrespeita totalmente o outro para caçar o SEU inimigo sob nossos aplausos, o cretino da história se torna o cara que vive de acentuar estereótipos.
Não sou nem um pouco entendido de teorias do humor, ou qualquer coisa que direcione a formação destes profissionais, mas imagino que uma forma de composição seria provocar o riso buscando possibilidades inusitadas de desfecho de uma determinada situação, ou um paralelo entre situações que de tão inusitadas venham a provocar o riso.
Eles trabalham com a representação. A representação está lá! É o objeto de trabalho de quem REPRESENTA a vida de modo a “congelar” pequenos recortes do cotidiano dando-lhes outra significação. Isso ocorre na fotografia, na literatura ou no humor. Cercear as possibilidades criativas é cercear o trabalho de alguém. Caso este alguém entre em desalinho com a expectativa do público, ele cairá no esquecimento. Se isso não acontecer seria muito mais interessante tentar entender o motivo da aceitação do que ser agressivo com o humorista.
Sei que retrucarão que a piada pode ser combustível para o preconceito. Mas vamos pensar em outra perspectiva: vejamos a piada como manifestação da memória, e tenhamos em mente a importância desta memória para a compreensão de nossa formação histórica.
Vejo que a ira causada por certas manifestações se dão mais por não permitir que um outro fale de ti (pessoas de fora iradas, seria, por concordarem com as primeiras), do que por uma questão de lembrança causada ou pela dor que certas composições de cenas descritas podem causar. Francamente, não acredito que aquele que tem em seu povo a marca de anos de luta pela sobrevivência vá se magoar por ser pechado de pão duro ou por dizerem que um determinado vagão o remeteria mentalmente a Aschwitz. Nem tão pouco, concebo a possibilidade de alguém que teme perder o apoio da família e teme manifestar carinho em público vá se ofender por ser chamado de bichinha.
Infelizmente, não existe uma medida certa para orientar o humor, e quem tenta fazê-lo recorrendo a um subjetivo bom senso não percebe que suas delimitações não brotam feito relva nem surgem ao acaso dos ventos. Particularmente, não gosto dos valores burgueses enaltecidos nas telenovelas, mas sei que isso vem de uma vivência individual. O que não me faz sentir a vontade para travar uma “cruzada pela moral operária contra as telenovelas” como estão fazendo com os humoristas.
 Lembremos, que somos todos diferentes e em cada diferença reside uma possibilidade de estereótipo que pode ser cômico ou triste e citar este estereótipo é tratar esta diferença.
Quero respeitar e conhecer a história do povo judeu, bem como quero respeitar e continuar amando meus amigos gays, mas sem imposições morais ou cerceamento de minha liberdade de expressão.