sexta-feira, 15 de julho de 2011

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO (resenha)

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO:

Gênero: documentário;
Direção: Peter Cohen;
Idioma: alemão;
Produção: 1989 / 1982

Após uma breve introdução sobre a forma em que uma pequena comunidade de aldeãos se relacionava com o ideal nazista, a tomada aérea da pequena aldeia repleta de vegetação sugere de lugar isolado, por onde o ideal de pureza e suas significações começam a ser desvendados em sua origem e relação com a vida íntima de seus defensores.
O filme “corta” para o registro da celebração do “dia da cultura”. O plano é o de um expectador e as imagens ficam mais agitadas, remetendo ao dinamismo urbano onde as ideias fazem parte de uma dinâmica política e os atores sociais se mostram efervescentes na vivência da nova realidade social alemã; em detrimento, do isolamento bucólico da primeira imagem.
O registro do desfile é épico e reflete o ponto de vista de seu objetivo: a exaltação dos símbolos nazistas e da enaltecida liturgia nazista. Militares, cavalos, estandartes, personalidades públicas em tomadas alternadas com a plateia que aplaude e apoia a parada.
Ainda no desfile, temos registros que apresentam parte da problematização que irá se desenvolver ao longo do filme. A narração é acompanhada por imagens de estátuas representantes de um ideal estético, e tomadas de um ângulo inferior, o que aumenta a perspectiva em relação a seu tamanho e imponência. Vale o registro, que estas são imagens captadas com o misto propósito de informação e propaganda, sendo usadas no filme com o reconhecimento da relevância dos propósitos cinematográficos como relevantes para a compreensão não só dos fatos, mas das possibilidades de “narração” contemporâneas a eles. Desta forma, as fotografias e os vídeos oficiais explorados pelo filme remontam a própria vontade de Hitler em conferir à liturgia de seus eventos o ideal de perfeição estética.
O filme trata a ambição estética nazista em associação às projeções artísticas de Hitler e seus correligionários em uma superação da simples vivência artística enquanto elemento cultural dissociado das outras esferas da vida pública. A apropriação estética da arte é algo intrínseco ao próprio sentido da vida, sendo referenciado às ações humanas as concepções artísticas e a filosofia pela arte empregada. A própria arquitetura na pretendida nova Alemanha acompanharia a imponência no novo povo que surgiria. Um exemplo desta simbiose político-estética estaria contido na frase repleta de significados que proferiu Hitler: “só entende o nazismo, quem conhece Wagner”. O compositor é exemplificado também no filme em sua importância na composição do ideário nazista.
Em um tom documental, é retratada a posição dos artistas e teóricos partidários do nazismo quanto à mistura dos valores estéticos com a concepção de raça e saúde mental e física. Se a arte conceituava o mundo, Hitler tinha na antiguidade sua inspiração e obsessão. O ideal estético que ajudou a justificar a eugenia tem lá suas raízes e o ideal da representação de homem. A oposição à perfeição estética clássica era a arte moderna, a qual, chamavam de arte degenerada associada aos bolcheviques e aos judeus.
Quando a limpeza era associada ao ideal nazista, o povo alemão era conclamado a assimilar sua higiene pessoal ao esforço do “corpo” alemão pela purificação da raça. Pelo “bem estar estético” e pela higiene pessoal, “arquitetura da destruição” mostra, que os operários poderiam se distinguir da ideia de uma classe que os unisse. A “melhoria” nos hábitos e na higiene os elevaria à semelhança aos burgueses. Assim, teria fim qualquer conflito de classes na Alemanha.
A narração não expõe as imagens nem as descreve de forma exata. A associação entre as imagens, as músicas e a narração é feita independente, de modo que, como linguagens distintas que são passam de forma distinta as imagens que se comunicam no propósito documental do filme e na problematização das questões históricas colocadas e no desenvolvimento da auto conceituação nazista amparado em valores relativos à arte  e a forma como isso desencadeou no genocídio nazista e em sua justificativa moral.
A imagem ganha, assim, um valor não só documental / ilustrativo, como é capaz de “narrar” fatos e valores quando esmiuçadas no sentido de investigar quem as produziu ou quem as reproduziu. As intenções, as pressões sociais, as negações (no caso da negação nazista à arte moderna), a busca formal da arte e a consagração destes valores formais apontam caminhos mais que válidos para a compreensão das dinâmicas históricas do mundo em que vivemos e ajuda, acima de tudo, a reconstruir a história do mundo que não passa somente pelos grandes eventos em sua magnitude e registro. A relação do homem com a imagem nos fornece dados para entendermos quem era este homem que se relacionava com os muitos valores que as imagens podem retratar. Acima de tudo, é preciso entender o homem que participa do evento histórico para entender seus valores e anseios no sentido de reconstruir os alicerces da história e perceber que espécie de alicerces estamos a edificar.

2 comentários:

Rogerio Floripa disse...

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Fel Literário disse...

Obrigado